PRIMEIRA COLUNA. FRANKLIN, PROFESSOR E ARTISTA, IMORTAL EM PATROCÍNIO

Foto: Acervo de Marília Brandão

franklin botelho

Ícone. É muito bom louvá-lo. E tratando-se de ícone da (nossa) terra natal, a Santa Terrinha, melhor ainda. Desta vez, uma pessoa símbolo da educação patrocinense. Quase cinco décadas a serviço da formação educacional e artística de diversas gerações. Professor do emblemático Ginásio Dom Lustosa, em seu auge regional, depois diretor também. Professor e diretor do Colégio Professor Olímpio dos Santos. Franklin Botelho é o célebre nome do personagem.

 

DE ONDE VEIO – Professor Franklin era patrocinense por adoção. Pois, nasceu em Paracatu em 09/5/1907. Filho do engenheiro, agrimensor, professor e fazendeiro Franklin José da Silva Botelho, deputado também na Velha República, de 1899 a 1906. O prof. Franklin fez em Paracatu o curso primário. Já o curso ginasial (hoje, parte do médio) fez em Uberaba, no Colégio Diocesano. Pois, naquela época, no Triângulo-Noroeste, apenas Uberaba e um pouco Paracatu tinham escolas convencionais. Segundo, a pesquisadora Fátima Machado, o estudante (ou família) viajava a cavalo de Paracatu a Patrocínio. E aí, por trem, no trajeto Patrocínio-Ibiá-Araxá-Uberaba, chegava a Uberaba. Portanto, viagem desgastante. Isso nos anos 20.

 

O COMEÇO – Ainda em Paracatu, Prof. Franklin aprendeu com o Prof. Tomaz Rabecão a ser músico de violino. Tornou-se exímio violinista e compositor musical. Dois anos após os padres holandeses inaugurarem o Ginásio Dom Lustosa e, no mesmo ano que o Colégio Normal Nossa Senhora do Patrocínio iniciava suas aulas, ou seja, 29/3/1929, ele mudou-se para Patrocínio, aos 22 anos de idade. Sua residência foi à Rua Afonso Pena, justamente em frente à escola, que lecionaria.

 

O MESTRE – Professor de Francês, Geografia e Canto Orfeônico. Nos anos 30, 40, 50 e 60 (parte), eram obrigatórios os ensinos de francês, latim e canto orfeônico. Além de professor, Franklin era músico, teatrólogo, fotógrafo, pintor, anedotista, radioamador e muito popular, principalmente entre os alunos.

 

A MÚSICA – Compôs diversas toadas sertanejas, tais como: Campina Verde, Manhãs de Minha Terra, Sabiá e Cancela. Franklin compôs também belas valsas, como a linda Serenata, que ele sempre tocava ao violino, nas salas de aula, explicando as notas musicais e os instrumentos. Somente os alunos do então Dom Lustosa souberam que o violino Stradivarius (invenção dessa família italiana) é uma joia rara e peculiar no mundo. E a letra de Serenata é de um romantismo inigualável e harmoniosa música:

 

Oh que noite tão calma de lua

Quanta paz e amor

Um violino soluça na rua

Quanta paz e amor

Velhos tempos que o tempo devora

Quanto amor e paz

Serenata de outrora

Quanta paz, quanto amor sinto agora

Serenata que se vai

Pelas ruas da velha cidade

Vai passando, soluçando

E não deixa comigo a saudade.”

 

HINO RANGELIANO – São dois. Serenata, a mais bonita música de Patrocínio, cantada e tocada ao violino pelo autor (Franklin Botelho) – este escriba teve o privilégio de assistir a diversas de suas apresentações ou ainda cantada por José Frazão (patrocinense) não é mais possível de ver e ouvir. Porém, as atuais interpretações são válidas. Saudades de Matão, música interpretada por diversos cantores do Brasil, do maestro José Carlos, é o outro hino da alma patrocinense. Além, o Hino Oficial de Patrocínio (gravado) tem a música de Franklin Botelho e letra do poeta Augusto de Carvalho.

 

O TEATRO – De sua autoria, algumas peças teatrais se tornaram inesquecíveis. A maioria pelas sonoras gargalhadas (provocadas), tais como: “A Incrível Genoveva” (a mais famosa), “Só no Bodoque” e “Os Caipiras São Assim”. Quanto à religiosidade, o destaque é a peça “São Francisco de Assis”.

 

RÁDIO AMADOR – Nos anos das décadas de 30 a 60, o radioamadorismo cumpriu importante papel nas comunicações, junto com o telégrafo. Prof. Franklin tinha em sua casa, a estação de radioamador identificada PKY-30, Esqueleto Quente. Assim, dizia ao chamar outros radioamadores. Ele comunicava em francês ou português com o mundo. Tinha conhecidos em países como Argentina e França. Os radioamadores operavam em ondas curtas. Era um serviço de utilidade pública (saúde, notícias, informações). Durante a 2ª Guerra Mundial, Prof. Franklin atuou bastante na divulgação/comunicação.

 

MAIS ARTE – Pintor de enorme sensibilidade, é autor de quadros quase sempre mostrando a natureza. Ótimo fotografo também (este autor tem fotografia tirada por ele).

 

A VIDA – Solteiro, não teve filhos. Doce pessoa, alegre e apartidário. Consta que em sua juventude, houve uma desilusão amorosa. Não possuiu familiares em Patrocínio. As escolas, os alunos e os amigos, eram a sua família. Nos anos 60, foi proprietário de um dos pouquíssimos Dauphine de Patrocínio, um carro da Willis do Brasil, menor do que o Fusca. Depois, comprou um Gordini, também da Willis, de igual tamanho (a folclórica dona Alessandrina da Praça Santa Luzia também adquiriu um veículo desse).

 

DETALHES DE AMIZADE – Este autor e, o hoje médico em Brasília, Mário Santos, sempre acompanhavam o Prof. Franklin em pequenas viagens, tais como a Monte Carmelo, em seu Gordini. Ambos, por serem alunos de maior destaque, sob supervisão dele (Franklin), corrigiam também provas de outras séries do Dom Lustosa. Questão de confiança.

 

FELIZ COINCIDÊNCIA – Três mestres. Três bandeiras. Três ícones. A primeira escola. Praticamente, todos com a mesma idade. Franklin Botelho nasceu em maio de 1907. Sebastião Elói nasceu em agosto de 1906. Padre Caprazio (Bernardus Jonhannes Marie Franken) nasceu em março de 1907. E dia 15 de junho de 1914 foi instalada a escola Grupo Escolar Honorato Borges.

 

TRISTE COINCIDÊNCIA – Professor Franklin Botelho faleceu em 18 de junho de 1981, aos 74 anos de idade. Em 6 de junho, mas em 1989, faleceu a professora Aglair de Castro Teixeira, uma referência educacional no então Grupo Escolar Honorato Borges (anos 50 e 60).

 

AGRADECIMENTO BEM PATROCINENSE – Pelas mãos e ensinamentos do mestre, Franklin Botelho, ou professor Frank, passaram todos os alunos secundaristas (então, ginásio) do Município e região, nas décadas de 30, 40, 50, 60 e 70. Por isso, Patrocínio muito lhe deve. E jamais poderá esquecê-lo.

 

HOMENAGEM – Franklin Botelho é o patrono da cadeira nº 1 da Academia Patrocinense de Letras, hoje ocupada por Maria Helena de Rezende Malagoli. É nome de praça na cidade.

 

FONTES – Os fundamentos desta crônica estão em algumas edições desta Primeira Coluna no Jornal de Patrocínio e Gazeta, acervos deste amador escriba e livro “Patrocínio, Ontem e Hoje”, de Fátima Machado.

 

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